Você conhece a situação bem: foi à estante para procurar alguma coisa mas logo se distraiu com outra e, pouco a pouco, esquece completamente o que foi procurar e se dedica a folhear a esmo ou livros velhos que o agradam ou livros que nunca leu e deseja ler ou livros de sua mulher ou livros de sua irmã ou livros emprestados que não devolveu e assim por diante. Há uns dias, adoentado, precisando descansar, fui, assim, procurar um livro.
Encontrei Encontros com Homens Notáveis, livro que mantenho há cerca de vinte anos. A edição é uma tradução desta: mesma capa, mesma chamada para o filme no canto, só que em Português:

Não tenho nenhuma lembrança de como a adquiri: suponho que ela durou esses anos e essas mudanças todas provavelmente por ter ficado esquecida, junto com mil outros livros, na casa de minha mãe. Mas, durante esses anos em que estive fora, cheguei a ter uma outra edição, e foi nessa segunda edição que efetivamente li o livro, essa:

Lembro que a retirei de uma estante que O Professor tinha repleta de livros de bolso velhos, todos dos anos 60 e 70: Brautigan e Vonnegut, li vários que tirei de lá; livros de Alan Watts, John Lilly, Lyall Watson e até Bateson, tudo em edições de bolso, empoeiradas e guardadas lá no alto sabe-se lá há quanto tempo, até que eu chegasse (dizer “esperando por mim”, que foi meu impulso inicial, seria ridículo).
Carreguei essa edição na bolsa que eu usava na época, uma bolsa tipo carteiro que tinha sido marrom e depois foi tinturada de preto (ficou ótima, me serviu ainda por muitos anos, o mestrado inteiro e mais uma pontinha do doutorado, quando eu a substituí pela bolsa azul com a faixa amarela que tenha até hoje). Lembro de ficar esperando o trem na plataforma da estação com muito frio e enfiar a mão no bolso da frente pra pegar esse livro; lembro de ler em pé, esperando o trem, e lembro também de ler no ônibus e de ler em casa, fumando, em uma poltrona velha que tinha sido da mãe do Professor e que eu tinha herdado: o revestimento estava gastando e meio quebradiço nos braços, mas ainda era uma poltrona muito boa, e muitas vezes desejei ainda ter aquela poltrona. Foi nela que terminei de ler esse livro, num sábado à noite, no inverno – como hoje.
Esse livro é, de acordo com categorias tranquilamente utilizáveis por mim hoje, brega: meio pode-crer, coisa de bicho-grilo, é um livro que fala do que foi leitura obrigatória para um certo tipo de pessoa em outro momento, reportando-me a uma pessoa que não sou mais e a um momento que, escusado dizer, já passou. Mas há algo nele que ainda me interessa, que inclui esse anacronismo e que me remete a algo que valorizo. Talvez seja a incompatibilidade dessas lembranças que tenho com relação aos dois volumes; talvez seja o fato de não lembrar como perdi a edição que li; talvez tenha alguma ligação com o dia em que fiquei surpreso com a música que de repente começou a tocar e, quando fui da cozinha até a sala para descobrir o que estava tocando, me apercebi no caminho que era um disco com as músicas de Gurdjieff e me lembrei de uma cena do filme, que não sei se era essa, mas bem que pode ter sido essa

Esse é o clima do livro e do filme: esses agasalhos estranhos, a fronteira entre os séculos XIX e XX, lugares altos e empoeirados, gente abdicando de coisas em busca da “verdade” e personagens com nomes como “Príncipe Skridlov” e lugares chamados Tbilisi, Khar (esse agá era importantíssimo) e Kazaquistão. Havia habilidade, desejo, empenho, surpresas, indeterminações. E, em particular, havia uma indeterminação: o que, afinal de contas, estava sendo contado? Era a história dos anos iniciais desse sujeito, Georges Ivanovich Gurdjieff, ou era uma outra história que se contava ali, usando como pretexto a história dele?
Hipóteses:
1. Stress ocupacional: fim de semestre, exaustão, baixa imunológica etc
2. Claro: Gripe Suína – e será que ridicularizaremos isso no futuro próximo? ou será que vai ser que nem as histórias do Tempo da Influenza?
3. Preciso me alimentar melhor
4. Preciso fazer exercícios
5. Preciso ir ao médico
6. Preciso me cuidar
7. Preciso mudar meu estilo de vida
etc
Há um padrão de saliências nessas hipóteses?
Alguma excepcionalidade?
São ordinárias?
Sinto vontade de inserir, por exemplo:
8. Preciso ouvir mais Yo La Tengo
9. Preciso ler mais
10. Preciso ir mais à praia
como fatores causais igualmente relevantes.
Plausíveis? Se há quem acredite em influências astrais, analogicamente, então?
Vejam como a discussão avança no cotejo de valores.
Agora, olhem a monotonia do mundo dos fatos: estou gripado, estou fungando, vou tomar um Naldecon.
A única pergunta que amigos às vezes fazem e que eu mesmo às vezes faço e que, agora, venho responder, é sobre as razões de ter deixado esse blog no limbo. São muitas e, provavelmente, as que eu consigo determinar são equivocadas – uma outra mudança de vulto na vida, falta de infra, desconforto com isso ou aquilo etc
O caso, provavelmente, é mesmo o de praxe: a dificuldade de negociar desejo, necessidade, e escrever.
Mas, deixando isso de lado isso, eis aqui mais um post, e que outros apareçam – ando mais a fim de ordinarizar mais o blog, escrever sobre ensino e essas coisas. E estar a fim é bom – vamos ver no que dá.
Arquivado em: Ozu
Você tem tempo, espera por ela. Entra numa livraria, um sebo conhecido onde você já passou muitas horas e onde ainda há de passar muitas outras: entra porque gosta de livros, de seu manuseio, de saborear a voragenzinha morna que não lhe abandona desde a infância, porque sempre espera encontrar algo precioso a preço de ocasião e, enfim, entra porque já está sentindo aquele comichão indócil provocado pela ausência dela que, com o passar dos anos, virou um hábito, você sabe do que se trata. Já estiveram ali muitas vezes juntos e, na verdade, no momento em que você entra na loja e ouve o “tim” que um sininho faz quando se abre a porta você se dá conta de que a primeira vez que entrou ali estava com ela: vocês acharam uma tradução francesa dos Diários de Kafka. Dia feliz aquele e você está se dando conta de que, se entra para se distrair um pouco da ansiedade da espera, entra também para estar mais perto dela.
Folheia cansado coisas antigas, coisas vãs e coisas queridas: “Bolor”, de Abelaira, lhe lembra uma piada que vocês fizeram na casa de sua mãe; um livrinho comentando a controvérsia Barthes-Picard lhe lembra dela dizendo com tom de pouco caso Nouveau Roman quem leu um leu todos; um volume de Heródoto da Loeb lhe lembra os dias que vocês passaram na casa da irmã dela, durante os quais você não leu uma linha sequer do livro sobre Heródoto que levou pra ler. A idade se pronuncia das estantes pra lhe dizer essas coisas: a primeira edição do Bolaño em português já faz dez anos, você lembra de quando leu o nome de Bolaño pela primeira vez numa Folha de São Paulo que publicava trechos de uma conversa dele com o Piglia – você lembra de ter gostado do título do Literatura Nazi, lembra que não a conhecia ainda, que gostava daquele apartamento, que gostava de dias de domingo naquele apartamento onde leu pela primeira vez o nome do Bolaño. Compra, enfim, um livro, sai, ela chega.
Passam-se os dias. Estão de férias, e vão um dia a Grumari: acordaram cedo e bem dispostos, adoram a praia, e essa praia em particular. Se arrumam, carregam livros, compram jornais, vituperam contra os políticos e os maus literatos e os pusilânimes acadêmicos todo o caminho até que enfim chegam, e sentam em cadeiras de praia dobráveis, de alumínio, com faixas coloridas, seminus. Venta. Dia lindo.
Você abre o livro que comprou e que genuinamente quer ler. Você olha pro mar, volta pro livro, lê algumas frases, olha de novo pro mar, vira pro lado, vê o perfil dela recortando o fundo azul, volta a ler um pouquinho mas logo vira pro lado de novo e começa Amor, lembra daquela história do Perec? E você já sabe a resposta, você já a conhece, você está feliz.

Arquivado em: Ozu
1. O conhecido episódio do aniversário
2. O fato de termos, eu e Walser, nascido no mesmo dia, 18 de dezembro
3. O personagem de Appenzell em Vida, Modo de Usar, de Perec
4. Walser e Seelig passeiam por Appenzell e à noitinha retornam ao manicômio
5. Consolo que brota da tragédia: abafamento da tragédia, tragédia em surdina e tragédia por escolha: como Averróis no conto de Borges, carecemos do nome certo
6. Durante uma caminhada Walser pensa Sem amor o homem está perdido.

Arquivado em: Ozu
Como você há de saber, era o tipo da coisa que ele já desejava há muito tempo, mas era aquele negócio, desejo adiado, embaçado por uma idéia de dever ser e também por pouca reflexão e alguma culpa. Fato é que agora, dentro da experiência, vivendo a sensação de ter tido tanta saudade disso que ele nunca teve antes ele enfim se sente à vontade, solto, na benesse, sabedor de uma certa liberdade e um pouco como imagina que devia se sentir o caçador, ou o pastor, o califa na batalha com sua cimitarra, o grumete na proa, o bom pai de família – essas entidades olímpicas e distantes que agora parecem seus parceiros, agora parecem ser eles que o entenderiam e pra ele diriam sim, sim, isso, bonito, meu filho: esses sim, e não aqueles administradores do mundo de fel que o cercam, a malta de Meus Senhores que controlam o bom senso do mundo, nem aquela senhora encavilhada e amarga, pele de papel velho, olho baço: esses, com quem se sentava hoje pela manhã, esses, coitados, de nada disso entendem, não são seus pares a não ser numa ópera bufa, drama farsesco que dissolve com um mínimo de pó cético: esses nunca saberão destes assuntos aqui. Hoje ele é um irmão do caçador, do pastor, do grumete: gosta de si mesmo, se supreende com coisas miúdas, amansa a dor nas costas com uma mão forte e pensa – olhando para a cidade se descortinando, as luzes da baía trêmula, as cúpulas da cidade velha – que muitas coisas que desejou vieram à tona agora, estão em suas mãos e todas são benéficas, todas têm a espessura certa em suas mãos e há tudo isso que faz desse momento, dessa vida e o que quer que seja que ele possui agora e doravante uma questão de amor apenas, um afeto que já foi tão esquecido de si e inconsciente de sua própria importância, sereno e discreto e intenso como tudo que ele amou até agora, como tudo que ele mais desejou amar.
Pode-se com facilidade retraçar as conexões entre o olhar dele agora e o olhar que ele, criança, às vezes distribuía pelo mundo em momentos muito pouco dignos de nota no padrão ordinário de referências: olhar seguro e leve, de quem se sabe amado, de quem não prevê desastre, de quem terá sempre um sono pesado e tranqüilo, de quem vai ter sempre um olhar amoroso repousando sobre seu rosto durante o sono, e nenhum medo, nenhuma coação, nada.
Pega o livro, então, pega também um de seus caderninhos e seu lápis vermelho; escreve com sua letra apertada algo à margem, num cantinho de página, uma nota meio oblíqua: escreve “Goethe”, “WB”, “RW”, “L”.
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(Uma origem aqui)