ozu


Trinta e dois anos
Março 26, 2008, 3:39 am
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e quantas mudanças? Já perdeu a conta, claro. Mas o fato é que ele mais uma vez está se mudando, e sabe que dias precários se avizinham, já estão ali na esquina: dormir no chão, roupas sujas acumuladas, café na padaria. Não é ruim, não é exatamente uma mudança de país. E também há um certo frisson: a casa nova, desempacotar os livros, entender os vizinhos, negociar com os porteiros e carteiros, tudo de novo - de novo viver em um espaço vazio e sem assinaturas por um tempo, de novo errar e se perder, cheio de esperanças na liberdade da disciplina e do ascetismo, cheio de sonhos loucos de um novo começo. O apartamento velhinho e apertado naquela rua estreitinha; aquele outro com uma vista maravilhosa; o último, com a árvore que quase tocava a janela do quarto. Aquela casa enorme, cheia de estantes e quartinhos; aquela outra, que passou meses com dois quartos fechados. Viver sem persianas, viver sem cama, sem geladeira, sem música, sem dinheiro. A cadeira do lado de fora, com um livro, no frio; a mesa com toalha verde para o baralho; as noites de bebedeira, e noites quietas, noites de insônia, silêncio e mil e um afetos espalhados por essas casas todas, poeira em paredes que não lhe pertencem mais. Ele sempre se pergunta quem vive em suas casas de antes, se pensam nele, se deixou algum vestígio, se vai ser lembrado pelos fortuitos e imprevistos inquilinos futuros. Tem trinta e dois anos, está se mudando mais uma vez: sabe que vai criar conforto mais uma vez, sabe que haverá outras e outras casas, outras mudanças, mais uma vez livros carregados, livros empacotados e desempacotados noite adentro cheios de coisas que não sabe ainda, também.

casa vazia, 2003


Trinta anos esta noite
Março 26, 2008, 3:22 am
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Os pais estão viajando. O irmão mais velho está numa ponta da mesa, fumando, mais interessado na fumaça que no fogo; tem um livro no colo, mas parece ter desistido da leitura, olha ao redor, para a fumaça, para nada. Na outra ponta da mesa o irmão mais novo se debruça sobre um livro e um caderno; escreve, lê um pouco, escreve mais um pouco, ergue o lápis, volta a escrever. A casa está quieta, e só o murmúrio dos vizinhos e dos carros, só a presença distante dos outros aparece, discreta, pouca.

Então eles ouvem, se entreolham e, sem uma palavra, sobem as escadas correndo, primeiro o mais velho, depois o mais novo. O mais velho liga o três em um e solta o pause. Então eles se deitam no chão frio, os dois, e devem estar sorrindo um pouco mas, mesmo que não estejam sorrindo, estão felizes: estão gravando “Eyes without a face”, canção cuja letra não entendem, mas que adoram, e que esperaram longamente para gravar do rádio. São irmãos, nove anos de diferença entre os dois, às vezes gostam de coisas parecidas, vão ao cinema e à biblioteca, brigaram muito pouco. A música termina, param a gravação, apertam as mãos, “Missão cumprida”, diz o mais velho, “Missão cumprida”, diz o mais novo - e assim esse incidente se resolve, finda, desaparece.

Mais de trinta anos depois a vida de cada um terá direito à sua cota de voltas, desvios e reviravoltas. Mas volta e meia, em silêncio, sem que um saiba da memória do outro, ainda vão lembrar disso, vão ver a si mesmos como personagens em um filme, borrar detalhes, apagar nuances, apegar-se a fantasmas, esquecer do presente para retornar supostamente incólumes ao momento e vão então se sentir um pouco mais leves, um pouco menos sólidos, um pouco mais jovens e um pouco mais claros porque vão estar lá, de novo e de novo e de novo, no meio do fim de semana em que os pais viajaram, no fim da tarde de verão, no fim dos anos oitenta, celebrando A Conquista de Billy Idol pelos Russos.

rp in dogfight


Eu queria
Fevereiro 27, 2008, 1:37 am
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ser um Sebald. Bigodinho simpático e olhar um pouco triste, mas bom. A roupa meio amarfanhada, mas sempre ok. Mas queria ser um Sebald com algum apelo pop, né? Que tivesse uns personagens assim mais contemporâneos, mais maluquete, que curtissem Morton Feldman e tomassem um chope de vez em quando, ficavam ouvindo Cage e curtindo, falando de Matthew Barney, Björk, o bicho. Ia ter um cara ouvindo Smiths, um cara se apaixonando por uma menina num show punk lá no cine Roma e depois pegando uma carona num caminhão e sentindo o vento e ficando feliz. Um cara que ia pro cinema com a irmã pequena e comprava pipoca. Uns coroas jogando dominó. E meu avô jogando Go. Tipo assim.

 

 

sebald
(Uma origem aqui)


Achei
Novembro 9, 2007, 1:35 am
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umas coisas que ele escreveu, um bilhetinho que tinha escrito watching shadows I saw the lonely nigga with sunglasses wandering through the streets, it felt like a mirror. Um papelzinho miserável, ele tinha esse hábito de escrever em qualquer lugar pra passar o tempo, andava com um caderninho na mão. Quantas vezes marquei um encontro com ele e quando chegava lá estava ele, com o caderninho, escrevendo. Lembrei do poema que ele dobrou e colocou na carteira, dez anos depois ainda tava lá, uma folhinha dobrada em quatro, gasta na dobra, quase se esfacelando, com o poema batido à máquina. Bons tempos.

Essas coisas, pensei, nunca fazem parte da Obra. Bilhetinhos, mensagens, os mil e uns restinhos verbais que a gente deixa pra trás. É só memória, abundante e volátil, vai tudo sumir. Mas que às vezes é bonito é.

The most happy fella



Aos
Novembro 8, 2007, 10:32 pm
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51, 52 anos seus interesses eram trabalho, bebida, família, amigos: um modelo moral.

Uma vez disse Você tem que entender que suas idéias são contraditórias e, ao mesmo tempo, tem que saber que a situação tem algo de inexplicável, não é?

lui même



Não,
Outubro 29, 2007, 2:40 am
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são duas coisas na verdade. Uma é um lance que acho que li em Borges, que é mais ou menos o seguinte: se você encontra a dicção de um personagem, de um sujeito, se você dá conta da fala do cara, tipo “Ah, Fulano fala assim, Fulano fala assado” então pronto, taí: Borges, digamos que foi Borges porque eu realmente não lembro e, na dúvida, a gente sempre pode atribuir as citações a Borges que no final dá certo, então Borges, que gosta dessa coisa que é meio brega mas, enfim, o que ele diz é que aí, nessa voz, você encontra um destino. Na fala, um destino. Isso, bom, nem precisa acreditar em destino pra dar valor a isso.

Então isso é uma coisa. A outra coisa é a história do cara que tem um livro que ele tá o tempo todo escrevendo e que Mitchell até persegue um tempo, porque ele acredita que tem mesmo um livro, um projeto de livro, inclusive porque o cara sempre andava com uma pastinha meio suja, com uns manuscritos, uns papéis. E Mitchell também era crédulo, era bondoso, parte do negócio dele era mesmo acreditar. Bom, esse livro aí, que no final a gente descobre que não tinha livro nenhum, nunca houve livro nenhum, assim, do ponto de vista material, nada, era um livro só de desejo, o título desse livro era um negócio tipo “Uma História Oral do Universo”, ou “Uma História Oral da Cidade de Nova York”, uma coisa assim, imagine. Esse caso é um problema interessante de história literária porque Mitchell [...]. Então tem aquele momento lindo em que ele diz “Mas nunca foi uma questão de preguiça”.

joe gould’s notebook

(Uma origem aqui)