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e quantas mudanças? Já perdeu a conta, claro. Mas o fato é que ele mais uma vez está se mudando, e sabe que dias precários se avizinham, já estão ali na esquina: dormir no chão, roupas sujas acumuladas, café na padaria. Não é ruim, não é exatamente uma mudança de país. E também há um certo frisson: a casa nova, desempacotar os livros, entender os vizinhos, negociar com os porteiros e carteiros, tudo de novo - de novo viver em um espaço vazio e sem assinaturas por um tempo, de novo errar e se perder, cheio de esperanças na liberdade da disciplina e do ascetismo, cheio de sonhos loucos de um novo começo. O apartamento velhinho e apertado naquela rua estreitinha; aquele outro com uma vista maravilhosa; o último, com a árvore que quase tocava a janela do quarto. Aquela casa enorme, cheia de estantes e quartinhos; aquela outra, que passou meses com dois quartos fechados. Viver sem persianas, viver sem cama, sem geladeira, sem música, sem dinheiro. A cadeira do lado de fora, com um livro, no frio; a mesa com toalha verde para o baralho; as noites de bebedeira, e noites quietas, noites de insônia, silêncio e mil e um afetos espalhados por essas casas todas, poeira em paredes que não lhe pertencem mais. Ele sempre se pergunta quem vive em suas casas de antes, se pensam nele, se deixou algum vestígio, se vai ser lembrado pelos fortuitos e imprevistos inquilinos futuros. Tem trinta e dois anos, está se mudando mais uma vez: sabe que vai criar conforto mais uma vez, sabe que haverá outras e outras casas, outras mudanças, mais uma vez livros carregados, livros empacotados e desempacotados noite adentro cheios de coisas que não sabe ainda, também.





