OZU


Há muito tempo
Setembro 19, 2006, 4:27 am
Arquivado em: Inventários

não nos vemos. Da última vez liguei pra ele da rodoviária, de surpresa: Estou aqui, vim pra isso e aquilo, de repente, nem eu sabia direito. Peguei o metrô cansado e feliz (gosto dessa combinação, e ambiciono morrer assim: observem que não usei a conjunção adversativa). E nos encontramos, e tomamos café, e me acomodei no carinho cálido da casa dele, e dormi.

Uma vez ele foi em meu apartamento, lembro que não tinha onde sentar, o que é uma maneira de dizer que sentaríamos, como sentamos, no chão. Tomamos chá, dessa vez e em muitas outras (aprendi a gostar de chá com ele).

Nos falamos pouco hoje em dia. É esporádico, e as razões são tênues: o novo disco do Dylan, piadas sobre as eleições, a saúde de uma pessoa querida, os discos dele, meus planos sempre meio esgarçados de futuros e sonhos loucos de um novo começo (ele não faz mais planos, acho: já tem quase sessenta, parece estar além, ou aquém, disso – e parece estar assim há muito tempo). Nos falamos pouco, como se fôssemos velhos amantes, e a fala fosse passear em outro lugar de vez em quando, aparecendo quando quer, e tão-somente, cheia de caprichos. Não é exatamente um caso de pouco importa: é mais pra um caso de velhos amigos – o que, efetivamente, é nosso caso.

Hoje ele me enviou um email. Dizem que há em cada geração trinta e seis homens justos – e, imagino: também leves, sorridentes, com um bom equilíbrio de gravidade e graça, uma compreensão igualmente fértil dos méritos respectivos de tragédia e comédia, eventualmente mal-vestidos mas em geral inequivocamente bons – dizem que há trinta e seis homens justos que sustentam a Terra, e que justificam a todos nós, os demais, os demasiados. Acho que alguns deles são mulheres, e acho que um deles é ele. Uma vez – há muitos anos mesmo, uns vinte, até mais – fomos ao cinema. Foi meu primeiro Kurosawa. Ele está aqui.

dersu

 


1 Comentário até o momento
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mas ele _é_ (temsido, semprefoi) seu amante…

Comentário por poucoimporta




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