OZU


O que lembro
Novembro 20, 2006, 4:13 am
Arquivado em: Escuta

do livro? Bom, tem as festas, como esquecer aquilo? Mas lembro mais de algumas torções da frase, umas imagens, um mosaico de imagens, aquilo que Barthes chama de punctum. É, então? Me lembro da descrição do céu, logo no início. O livro começa e termina com o céu, não dá pra ignorar isso, acho, começa de dia e termina de noite, em um eclipse lunar ocorrendo e se desfazendo, e a perplexidade toda em torno da coisa. Sim. Então tem isso, tem esse arco. Isso tem valor, acho, há algo que é dito aí, uma alegoria, mas não sei bem o que fazer com isso. É. Bom, tem outras coisas também, né? Por exemplo, ele menciona a maneira como foi carregado, ainda jovem, no dia da captura. Não, era pelos cotovelos. Olha só. É só um detalhinho, mas isso é soberbo, há uma captura muito sutil de uma beleza insólita aí, de um jeito distinto de dispor o corpo em relação às coisas e os afazeres. Tem mais coisas mas não me lembro agora, tem a imagem dele velhinho, comendo azeitona, que é clássica, Montaigne e tal, exaurida até, mas que ali sempre aparece vívida, então é outra composição contrastiva importante, acho, porque aí tem um certo ocaso da experiência em paralelo à vivacidade de certas memórias. Não, acho que isso não é uma questão. Sempre tem seleção no processo, claro, lembrar é esquecer de certas coisas, não tem aderência total da experiência à recordação, que é isso? Mas enfim, tem mais coisa no livro sim, peraí.

Ah, agora lembrei de um negócio que ele falou. Um dia, a gente tava bebendo não sei aonde, o livro apareceu na conversa. É, deve ter sido uma dessas conexões bizarras, tipo alguém falou de Céline, acho que o Simão tava lendo Céline na época, tava todo empolgado. É. Mas aí então alguém falou de Céline, a conversa foi derivando, acho que mencionei Glosa e daqui a pouco a gente tava lá falando do livro. Aí ele me disse “Ei, Antoine, e aquele personagem, hein? Aquele índio que tem um início, um prenúncio de subjetividade? Que é mais mole que os outros, hein? Mais mole, mais relaxado?” Agora, veja só, nessa época, isso foi o quê? 96, 97, acho. Nessa época eu já tinha lido duas vezes, já tinha pensado muito no livro e tal, tava escrevendo a tese, o livro já tinha me ocupado, eu tinha lido mesmo. Mas nem de longe tinha me ocorrido isso. Nem tinha chegado perto disso. E aí é tipo um cerne da narrativa. Então, tem esse trecho magnífico, que é um dos momentos finais mesmo, é o final desse personagem, o final está ali, e o narrador retrocede e expõe o sujeito, mas o presente dele é o da agonia, do final, da extinção e é no retrocesso que a gente fica sabendo da falha trágica desse herói sem nome, que prenuncia a forma das coisas que viriam, dentro e fora, o único que tem um laivo de exterioridade ali no circuito. E o jogo todo do livro circunda essa questão da exterioridade. É, a gente já conversou sobre isso. Agora veja, a coisa me apareceu numa mesa de bar, conversando com ele. Na hora tive uma sensação de acerto, de tiro na mosca. Na hora que ele falou, pensei “Batata!” Que a coisa tenha vindo de você mesmo, lá de suas especulações e tal ou que tenha vindo da boca do outro pouco importa.  É como o caso das orgias lá que chamam tanto a atenção pra quem lê: descrever é dizer também o que a coisa faz, e o que a coisa faz são muitas coisas. Mas numa situação como aquela, no bar, o legal é essa sensação de “Pronto, agarrei”, que pode vir em qualquer ocasião mas que, de fato, em um certo sentido, não deve vir em nenhuma, acho.  Pois é, é isso.

staden

 


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Só dei uma fuçada no blog, mas parece que está aqui o Tomatis. Gostei da imagem. Durante a leitura do livro, a conexão com o “Duas Viagens…” me era muito presente.

Comentário por Simon




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