OZU


Não consegue
Novembro 21, 2006, 4:47 pm
Arquivado em: Ozu

evitar uma certa inveja quando, por exemplo, a caminho do trabalho, ou em um trajeto ordinário na vizinhança, ou pelo centro da cidade, em meio a tarefas e obrigações e no burburinho geral, vê alguém, quase sempre um homem, muitas vezes só mas quase sempre em companhia de outro, às vezes com uma certa quietude curiosa, mas às vezes também emanando tédio, ou preocupação, ou algum estado de falência mas, enfim, tomando uma cerveja, se permitindo tamanha desfaçatez no meio do dia. Nessas ocasiões, sente sempre um pouquinho de inveja, e sempre também se projeta para o drama íntimo, a minitragédia que acompanha o bebedor e que, com certeza, há de estar presente, mesmo que oculta ou dissimulada, assim como a sua está presente e, por essa via, pensa também que, com ou sem cerveja, a tragédia é certa, então por que não a cerveja? E aí está, talvez, o que justifica o magnetismo que a situação exerce: a cerveja está ali, a cerveja acontece, porque alguém se permite e, assim, saímos do campo triste e monótono da necessidade e rumamos ao campo, muito melhor, inclusive porque potencialmente infinito, da possibilidade. Possibilidade, nesse caso, de um certo relaxamento da punção da pressa, de uma curva mais suave, de um abrandar da tensão como é, pensa, o resultado da massagem balsâmica do chope gelado e de suas adjacências freqüentes em sua memória, a companhia de amigos, os momentos de celebração, as lembranças da mesa, o desejo de conversa e de gregarismo que, na situação, ao mesmo tempo que se apresenta se amplifica à medida que a cerveja prossegue, efetuando seus efeitos, estimulando uma certa memória, dissolvendo um certo superego, ou seus efeitos, o que, para efeito de argumento, há de dar no mesmo. Mas, também, sempre que pensa assim, imagina que há mil circunstâncias que contaminam esse gesto no qual só vê o exercício de uma poética do viver marcada por um certo laissez faire, e se recorda de X e Y, e lembra que, sim, até aquela cerveja, suposto antídoto ao dia, ao trabalho, aos maniqueísmos estúpidos dos servos do apocalipse e dos filisteus, mesmo ela pode, facilmente, ser retorcida para o campo da necessidade, ou pode ser fruto ou função de infelicidade e, sem conseguir sair dessa tensão, ainda assim a cena o fascina, ainda assim inveja seus portadores, e sempre faz da visão um trampolim que lhe lança em especulações sobre a desgraça do mundo administrado e sobre aqueles que, em meio a tamanha desgraça, ainda guardam, pelo exemplo, algo da dinâmica do possível mas, ainda assim, ao pensar isso, relativiza, critica, pensa Não é necessariamente assim etc e, assim, retorna ao arrazoado e, logo depois, retorna à justificação da importância do que viu e assim vai até que o pensamento, em sua derivação habitual de delírio domado, envereda por outra rota e, enfim, afastado também o corpo da visão que iniciou todo o processo, aos poucos o incidente retrocede e concede a outros o benefício da presença.

beer

 

(Uma origem aqui)


1 Comentário até o momento
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normalmente não sinto inveja. tenho orgulho dos momentos colecionados em torno dela e certeza de que em breve terei mais um. envy less, drink more!

Comentário por chico




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