OZU


Entre
Dezembro 29, 2006, 12:03 am
Arquivado em: Ozu

os papéis que vasculha, procurando um que já nem sabe mais qual é e, por isso, volta e meia tem que parar para se esforçar para relembrar, e assim prossegue encontrando muitos que lhe despertam isso e aquilo, todos obviamente produzem memória mas há mais também. Tome por exemplo esse papel verde claro, dentro de um envelope com seu nome escrito, e a caligrafia já torna dispensável a confirmação pela assinatura de quem escreveu, que escreveu

O mar, em sua imensidão, é para uns pavor e opressão. Para outros é já um braço largo, a infinitude que aconchega e faz a criação cruzar o horizonte. Em sendo sempre o mesmo, retorna parecendo outro.

E há a data e os cumprimentos de praxe mas, também, uma rasura: a palavra mar, na primeira linha, foi riscada e, com uma caneta diferente, está escrito acima amor.

Esse papel encontrado produz uma curva em sua busca, um retorno desse momento para outro, e para ali onde aquela carta foi enviada, para a forma como foi recebida e, assim, a compressão dos cinco anos que lhes separam é, nesse momento da descoberta e da leitura, um hiato ínfimo, e tudo parece um aceno, parece seu nome dito na noite, quando menos se espera uma voz familiar no meio da noite erguendo sem hesitar seu nome, e é fato que todos os envolvidos naquele círculo de segredos e coisas mal feitas e bem ditas estão hoje entre removidos e distantes, semi-esquecidos e ausentes, mas todos um pouco mais mortos e feridos apesar de, como você, continuarem, cada um à sua maneira, também.

 

sea

(Uma origem aqui)


3 Comentários até o momento
Deixe um comentário

adorei o Amós de quebra aqui ;)

Comentário por ana

gostei :-)

Comentário por victor

Minha leitura e “deleitura”, seja de autores de quem apenas algo sei, seja de amigos, estão quase sempre contaminadas por genealogia com algo de busca “arqueológica” a seu serviço – reduzir, aproximar e separar fragmentos, descubrir estructuras… e ‘hacking the code’. Ler e aplicar engenharia inversa sobre o código de programação mais avanzado, que há na trama (tecido, teia, net…) literária – por isso não apta a qualquer um… ah, e isso vale para canções também… Mas tudo isso é jogo, não método…

Por isso não posso evitar escudrinhar esses vestigios autobiográficos de AMP em Antoine… contudo, “un océano y tiempo” de lacuna não me deixam abrir todas as cortinas aqui… mas isso também seria muito, demais… acho que assim tá legal pra mim… literariamente falando, digo…

Nesse post mais que em outros, adverto material de “trabalho”…

Quanto à distancia física, proponho uma imagem prailustrar meu comentario( e pra afinar “con el entorno”):

AMP, com algo de perplexidade e um pouco de mágoa fingida, diz (o que EU deveria dizer…):
- “Cara, venha nos ver…! Que absurdo…!”
A meio metro do chão, a cada segundo,
24 fotos são disparadas…

Comentário por iauarete




Deixe um comentário
Linhas e parágrafos quebram automaticamente, endereços de email não serão mostrados, HTML permitido: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>