ozu


Não,
Outubro 29, 2007, 2:40 am
Arquivado em: Escuta, Ozu

são duas coisas na verdade. Uma é um lance que acho que li em Borges, que é mais ou menos o seguinte: se você encontra a dicção de um personagem, de um sujeito, se você dá conta da fala do cara, tipo “Ah, Fulano fala assim, Fulano fala assado” então pronto, taí: Borges, digamos que foi Borges porque eu realmente não lembro e, na dúvida, a gente sempre pode atribuir as citações a Borges que no final dá certo, então Borges, que gosta dessa coisa que é meio brega mas, enfim, o que ele diz é que aí, nessa voz, você encontra um destino. Na fala, um destino. Isso, bom, nem precisa acreditar em destino pra dar valor a isso.

Então isso é uma coisa. A outra coisa é a história do cara que tem um livro que ele tá o tempo todo escrevendo e que Mitchell até persegue um tempo, porque ele acredita que tem mesmo um livro, um projeto de livro, inclusive porque o cara sempre andava com uma pastinha meio suja, com uns manuscritos, uns papéis. E Mitchell também era crédulo, era bondoso, parte do negócio dele era mesmo acreditar. Bom, esse livro aí, que no final a gente descobre que não tinha livro nenhum, nunca houve livro nenhum, assim, do ponto de vista material, nada, era um livro só de desejo, o título desse livro era um negócio tipo “Uma História Oral do Universo”, ou “Uma História Oral da Cidade de Nova York”, uma coisa assim, imagine. Esse caso é um problema interessante de história literária porque Mitchell [...]. Então tem aquele momento lindo em que ele diz “Mas nunca foi uma questão de preguiça”.

joe gould’s notebook

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O que lembro
Novembro 20, 2006, 4:13 am
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do livro? Bom, tem as festas, como esquecer aquilo? Mas lembro mais de algumas torções da frase, umas imagens, um mosaico de imagens, aquilo que Barthes chama de punctum. É, então? Me lembro da descrição do céu, logo no início. O livro começa e termina com o céu, não dá pra ignorar isso, acho, começa de dia e termina de noite, em um eclipse lunar ocorrendo e se desfazendo, e a perplexidade toda em torno da coisa. Sim. Então tem isso, tem esse arco. Isso tem valor, acho, há algo que é dito aí, uma alegoria, mas não sei bem o que fazer com isso. É. Bom, tem outras coisas também, né? Por exemplo, ele menciona a maneira como foi carregado, ainda jovem, no dia da captura. Não, era pelos cotovelos. Olha só. É só um detalhinho, mas isso é soberbo, há uma captura muito sutil de uma beleza insólita aí, de um jeito distinto de dispor o corpo em relação às coisas e os afazeres. Tem mais coisas mas não me lembro agora, tem a imagem dele velhinho, comendo azeitona, que é clássica, Montaigne e tal, exaurida até, mas que ali sempre aparece vívida, então é outra composição contrastiva importante, acho, porque aí tem um certo ocaso da experiência em paralelo à vivacidade de certas memórias. Não, acho que isso não é uma questão. Sempre tem seleção no processo, claro, lembrar é esquecer de certas coisas, não tem aderência total da experiência à recordação, que é isso? Mas enfim, tem mais coisa no livro sim, peraí.

Ah, agora lembrei de um negócio que ele falou. Um dia, a gente tava bebendo não sei aonde, o livro apareceu na conversa. É, deve ter sido uma dessas conexões bizarras, tipo alguém falou de Céline, acho que o Simão tava lendo Céline na época, tava todo empolgado. É. Mas aí então alguém falou de Céline, a conversa foi derivando, acho que mencionei Glosa e daqui a pouco a gente tava lá falando do livro. Aí ele me disse “Ei, Antoine, e aquele personagem, hein? Aquele índio que tem um início, um prenúncio de subjetividade? Que é mais mole que os outros, hein? Mais mole, mais relaxado?” Agora, veja só, nessa época, isso foi o quê? 96, 97, acho. Nessa época eu já tinha lido duas vezes, já tinha pensado muito no livro e tal, tava escrevendo a tese, o livro já tinha me ocupado, eu tinha lido mesmo. Mas nem de longe tinha me ocorrido isso. Nem tinha chegado perto disso. E aí é tipo um cerne da narrativa. Então, tem esse trecho magnífico, que é um dos momentos finais mesmo, é o final desse personagem, o final está ali, e o narrador retrocede e expõe o sujeito, mas o presente dele é o da agonia, do final, da extinção e é no retrocesso que a gente fica sabendo da falha trágica desse herói sem nome, que prenuncia a forma das coisas que viriam, dentro e fora, o único que tem um laivo de exterioridade ali no circuito. E o jogo todo do livro circunda essa questão da exterioridade. É, a gente já conversou sobre isso. Agora veja, a coisa me apareceu numa mesa de bar, conversando com ele. Na hora tive uma sensação de acerto, de tiro na mosca. Na hora que ele falou, pensei “Batata!” Que a coisa tenha vindo de você mesmo, lá de suas especulações e tal ou que tenha vindo da boca do outro pouco importa.  É como o caso das orgias lá que chamam tanto a atenção pra quem lê: descrever é dizer também o que a coisa faz, e o que a coisa faz são muitas coisas. Mas numa situação como aquela, no bar, o legal é essa sensação de “Pronto, agarrei”, que pode vir em qualquer ocasião mas que, de fato, em um certo sentido, não deve vir em nenhuma, acho.  Pois é, é isso.

staden

 



Tem aquela história
Novembro 4, 2006, 6:30 pm
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que o Kronos Quartet marcou uma performance do Quarteto #2 de Feldman. Marcaram, saiu na programação de algum festival e tal. Aí, quando começaram a ensaiar, se deram conta de que não iam agüentar. Que não ia dar certo, que eles não tinham força pra executar o negócio. O Kronos Quartet! Caralho. Feldman nessa época tava numa viagem de duração que era hostil mesmo. Era bem tipo teste moral. Tipo Vamos ver, pessoal, vamos ver até onde a gente consegue ir com isso aqui. Porque Cage tem um ou outro experimento de longa duração, mas a coisa com Cage logo descamba pra um outro terreno. E, no caso de Feldman, é música. Música mesmo.

Tem outra história com Feldman que eu gosto que é de uma mesa-redonda que ele teve com o Xenakis. Eu sempre imagino o Feldman como sendo um sujeito que contrasta com a própria arte. A música dele é quieta e intensa, mas ele era, dizem, tipo um urso branco numa ópera bufa, uma opereta escrita por um Beckett mais divertido e mais chapado. Então Feldman tá lá na mesa-redonda, isso era tipo meados dos anos 80, e Xenakis também. Xenakis eu já acho que era o tipo do músico cri-cri, cheio de filosofemas e metafísicas da música e do universo e tal. Aí, tem uma hora que Xenakis pergunta pro Feldman se ele tinha gostado da performance da noite anterior. Feldman diz que nem gostou nem não gostou. Xenakis diz Como assim? e Feldman responde Não gostei nem não gostei. Aí, quando o Xenakis pressiona ele pra dizer algo mais ele enfim diz Ah, eu queria que eles respirassem juntos melhor, que contassem menos e respirassem mais. Agora você ouve isso de qualquer um e diz Ah, merda New Age! mas você ouve isso de Feldman e, bom, faz sentido, né? Outro sentido, quer dizer. Tenho até uma foto que tiraram deles, é bonita, o Feldman tá falando alguma coisa na maior empolgação, cigarro na boca, e o Xenakis tá rindo, aqui, ó:

morton-iannis

 

(Uma origem aqui)



Conversa telefônica em Belo Horizonte
Setembro 29, 2006, 3:02 pm
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Ele me diz: Não, gostei sim, é legal, os ensaios são massa, ele é foda, nesse lance de ensaio eu gosto muito. Mas a melhor descrição, a melhor narrativa que eu me lembro que tem a ver com isso, com essa coisa de escrever, revisar, reescrever, publicar e tal é aquele livrinho de Gorey, The Unstrung Harp. Aliás, essa imagem me persegue, rapaz, tem um magnetismo muito grande sobre mim, um poder, é daquelas coisas que eu nunca esqueci, sabe? é, tem leitura que é assim, né? é foda. Porque veja que o cara está diante do instrumento, pronto pra execução, mas o que vai sair dali? se não tem corda no instrumento? Um eterno 4′33″, né? só se for. Mas isso alude acho à coisa de ter de produzir música do nada, ou do quase nada, de ter de extrair os recursos mínimos para produzir um som - porque, afinal de contas, é isso mesmo né? o esquema é esse, é parte dessa nossa ansiedade discursiva, falar falar falar, a gente fala pra caralho, a verdade é essa, essa coisa toda de produzir narrativa, eu acho. Mas não vou entrar nesse caminho não, vamos voltar aqui. É, metafísica da leitura, só o que faltava. “Ontologias da Leitura”, é, isso vende livro, rapaz, sério. Não, esse é outro, esse do alfabeto é outro. É, é muito famoso, deve ser das coisas mais famosas dele. Não, esse é o primeiro livro que ele publicou, acho, não sei se foi o primeiro que ele escreveu, mas tenho quase certeza que foi o primeiro que ele publicou. Não, o da harpa. É. É o esquema de sempre, aqueles cenários meio vitorianos, evocações de James, mas sempre o bicho tá pegando aqui. E tem esse componente alegórico também, a ilustração ajuda um pouco, tem uma coisa sombria. E essa obsessão dele pela falha, pelo que dá errado. Ou seja, o devir da coisa é dar errado, sempre, é isso. É, mais ou menos. Então é a história de um escritor, um cara já estabelecido como autor, já publicado, às voltas com mais um livro. Ele tipo publica um a cada dois anos, num esquema tipo ano sim, ano não. E a história se concentra nos procedimentos dele, nas operações cotidianas, nas decisões sobre o título, a narrativa, os personagens, no trabalho que dá a coisa toda. Tem uma hora por exemplo que a gente vê o cara sentado no chão diante da pilha manuscrita com uma tesoura e cola, é, veja que zorra devia ser isso antes de ter computador, outra hora ele aparece nauseado com a perspectiva de passar a limpo as coisas, os personagens começam a aparecer pra ele, sombras passeando pela casa, são os personagens, o cara sozinho pra trabalhar lidando com isso tudo. Muito vazio, a história fala de uma situação que, acho, termina engendrando muito vazio. O cara fica perplexo consigo mesmo, fica andando pela casa à toa, não faz nada, muito tédio, muito vazio. Não, não necessariamente ruim, tem razão. Aliás não acho que é isso que ele quer dizer não. Eu sempre fico impressionado com essas figuras de felicidade e plenitude produtiva na escrita, sabe, fico pensando que, porra, esse negócio é idiossincrático mesmo, até pra transar você de um jeito ou de outro termina recolhendo modelos ou aprendendo alguma coisa na fala dos outros, ou num filme, é, ou em vários filmes, pois é, bem lembrado. Mas então é isso. Na tese tem algo assim também, é. É, no escrever, tese é escrever, né? Também. É, o procedimento mesmo, né? Não é igual, certo, mas tem a ver. Ou pelo menos comigo teve. Não. Mas é literatura. Mas bom, voltando aqui, esse livro, esse negócio do vazio por exemplo, no final o cara, o tal Mr Earbrass, olha que nome, bom no final ele tá meio no limiar de alguma coisa, espera um barco, vai atravessar o Canal da Mancha ou coisa que o valha. Tem uma fronteira. E é final mesmo, no sentido de o livro foi escrito, publicado, já teve noite de lançamento ou equivalente. Não, autógrafo não, pelo menos não aparece, e talvez essa prática seja mais recente, o livro é tipo do fim do século dezenove, quer dizer o cenário do livro, né. Então o cara tá lá, à espera, no limiar do oceano, um umbral, uma passagem mesmo. E eu vejo muito vazio na situação, mas vazio no sentido de Sim, criei, e agora? Escrevi, e agora? Que nem naqueles títulos de filme de Ozu que você gosta, é, Eu escrevi, mas… Pois é. Mas eu acho que o negócio é também mostrar que o livro tipo se espalha, sabe? É. Tem antes do livro, tem durante o livro, tem depois do livro, tem desejo do livro, tem necessidade do livro, tem raiva do livro, tem gente ao redor do livro, tem coisa ao redor do livro, é isso, tem essa coisa toda e afinal a gente fica nessa coisa toda de ler e querer escrever também, é isso. É, isso, e o negócio é o cara ali, mala na mão, de frente pro mar, esperando o barco, é, é devolver a gente pra vida, tira um pouquinho, devolve depois, se a coisa funciona, é isso mesmo, eu acho, é. Na verdade não tira não, não tem como sair, ou melhor só tem um jeito, mas, é, você entendeu, é, isso. Isso. É, veja o Bolaño. Pois é. O jogo só termina quando acaba, e só acaba mesmo quando a gente morre. Então com o livro é ainda pior, porque nem quando você morre o livro acaba. É, tô parecendo um rabino falando, né? O livro, o livro, o livro. Pois é. Mas você entendeu. Isso.

 

 

Gorey, The Unstrung Harp



Nós, que
Setembro 19, 2006, 4:41 am
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amamos tanto a Romica, e que buscamos incessantemente por uma ou outra foto dela que nos retire desse único momento capturado: mas também isso é parte do encanto, quase como uma santa no altar, cristalizada em um único estado, o de Graça:

romica

(nota para uso futuro: escrever uma seqüência mais ou menos exaustiva de incidentes do tipo Reader meets Author ou, como é o caso aqui, Disciple teaches Master)