Ele me diz: Não, gostei sim, é legal, os ensaios são massa, ele é foda, nesse lance de ensaio eu gosto muito. Mas a melhor descrição, a melhor narrativa que eu me lembro que tem a ver com isso, com essa coisa de escrever, revisar, reescrever, publicar e tal é aquele livrinho de Gorey, The Unstrung Harp. Aliás, essa imagem me persegue, rapaz, tem um magnetismo muito grande sobre mim, um poder, é daquelas coisas que eu nunca esqueci, sabe? é, tem leitura que é assim, né? é foda. Porque veja que o cara está diante do instrumento, pronto pra execução, mas o que vai sair dali? se não tem corda no instrumento? Um eterno 4′33″, né? só se for. Mas isso alude acho à coisa de ter de produzir música do nada, ou do quase nada, de ter de extrair os recursos mínimos para produzir um som - porque, afinal de contas, é isso mesmo né? o esquema é esse, é parte dessa nossa ansiedade discursiva, falar falar falar, a gente fala pra caralho, a verdade é essa, essa coisa toda de produzir narrativa, eu acho. Mas não vou entrar nesse caminho não, vamos voltar aqui. É, metafísica da leitura, só o que faltava. “Ontologias da Leitura”, é, isso vende livro, rapaz, sério. Não, esse é outro, esse do alfabeto é outro. É, é muito famoso, deve ser das coisas mais famosas dele. Não, esse é o primeiro livro que ele publicou, acho, não sei se foi o primeiro que ele escreveu, mas tenho quase certeza que foi o primeiro que ele publicou. Não, o da harpa. É. É o esquema de sempre, aqueles cenários meio vitorianos, evocações de James, mas sempre o bicho tá pegando aqui. E tem esse componente alegórico também, a ilustração ajuda um pouco, tem uma coisa sombria. E essa obsessão dele pela falha, pelo que dá errado. Ou seja, o devir da coisa é dar errado, sempre, é isso. É, mais ou menos. Então é a história de um escritor, um cara já estabelecido como autor, já publicado, às voltas com mais um livro. Ele tipo publica um a cada dois anos, num esquema tipo ano sim, ano não. E a história se concentra nos procedimentos dele, nas operações cotidianas, nas decisões sobre o título, a narrativa, os personagens, no trabalho que dá a coisa toda. Tem uma hora por exemplo que a gente vê o cara sentado no chão diante da pilha manuscrita com uma tesoura e cola, é, veja que zorra devia ser isso antes de ter computador, outra hora ele aparece nauseado com a perspectiva de passar a limpo as coisas, os personagens começam a aparecer pra ele, sombras passeando pela casa, são os personagens, o cara sozinho pra trabalhar lidando com isso tudo. Muito vazio, a história fala de uma situação que, acho, termina engendrando muito vazio. O cara fica perplexo consigo mesmo, fica andando pela casa à toa, não faz nada, muito tédio, muito vazio. Não, não necessariamente ruim, tem razão. Aliás não acho que é isso que ele quer dizer não. Eu sempre fico impressionado com essas figuras de felicidade e plenitude produtiva na escrita, sabe, fico pensando que, porra, esse negócio é idiossincrático mesmo, até pra transar você de um jeito ou de outro termina recolhendo modelos ou aprendendo alguma coisa na fala dos outros, ou num filme, é, ou em vários filmes, pois é, bem lembrado. Mas então é isso. Na tese tem algo assim também, é. É, no escrever, tese é escrever, né? Também. É, o procedimento mesmo, né? Não é igual, certo, mas tem a ver. Ou pelo menos comigo teve. Não. Mas é literatura. Mas bom, voltando aqui, esse livro, esse negócio do vazio por exemplo, no final o cara, o tal Mr Earbrass, olha que nome, bom no final ele tá meio no limiar de alguma coisa, espera um barco, vai atravessar o Canal da Mancha ou coisa que o valha. Tem uma fronteira. E é final mesmo, no sentido de o livro foi escrito, publicado, já teve noite de lançamento ou equivalente. Não, autógrafo não, pelo menos não aparece, e talvez essa prática seja mais recente, o livro é tipo do fim do século dezenove, quer dizer o cenário do livro, né. Então o cara tá lá, à espera, no limiar do oceano, um umbral, uma passagem mesmo. E eu vejo muito vazio na situação, mas vazio no sentido de Sim, criei, e agora? Escrevi, e agora? Que nem naqueles títulos de filme de Ozu que você gosta, é, Eu escrevi, mas… Pois é. Mas eu acho que o negócio é também mostrar que o livro tipo se espalha, sabe? É. Tem antes do livro, tem durante o livro, tem depois do livro, tem desejo do livro, tem necessidade do livro, tem raiva do livro, tem gente ao redor do livro, tem coisa ao redor do livro, é isso, tem essa coisa toda e afinal a gente fica nessa coisa toda de ler e querer escrever também, é isso. É, isso, e o negócio é o cara ali, mala na mão, de frente pro mar, esperando o barco, é, é devolver a gente pra vida, tira um pouquinho, devolve depois, se a coisa funciona, é isso mesmo, eu acho, é. Na verdade não tira não, não tem como sair, ou melhor só tem um jeito, mas, é, você entendeu, é, isso. Isso. É, veja o Bolaño. Pois é. O jogo só termina quando acaba, e só acaba mesmo quando a gente morre. Então com o livro é ainda pior, porque nem quando você morre o livro acaba. É, tô parecendo um rabino falando, né? O livro, o livro, o livro. Pois é. Mas você entendeu. Isso.
