que fizesse um FAQ para o blog. Tá difícil de entender aquele negócio, rapaz. Tá muito cifrado, eu não entendi muito não, acho que você devia fazer um FAQ. Era meio de brincadeira (um dos méritos dele, aliás, é uma habilidade perene em retorcer as situações e injetar alguma graça nelas, apesar da eventual potência trágica de certos momentos: ele parece às vezes se mover pensando na vida como um esquema onde tudo que começa em tragédia termina em tragicomédia). Mas fiquei pensando no assunto. E pensei o seguinte: observe a foto:

Aqui, vemos Ozu posicionando a câmera para uma tomada. A posição é baixa: quase que ao rés do chão. É difícil enquadrar assim, exige uma atenção para detalhes particulares que escapolem do nosso regime de hábitos de observar. A perspectiva produzida por esse posicionamento é, assim, extraordinária. Uma predileção por essa posição de câmera é um dos elementos definidores da produção de Ozu. A partir dessa perspectiva Ozu enquadrou seus personagens, seus cenários e contou suas histórias. Veja alguns resultados: esse, por exemplo, é muito famoso, sempre aparece em discussões das particularidades formais do trabalho de Ozu:

Essa tomada, de Ervas Flutuantes (1959), é sempre citada como exemplar de uma certa estratégia de composição de Ozu: a garrafa e o farol são dispostos em um mesmo plano de consistência: como se não houvesse discrepância entre os artefatos: como se uma mesma atenção coubesse à garrafa, ao farol, e à circunstãncia. Como se todas as proporções que costumamos dar às coisas devessem ser redistribuídas, e novos regimes de equilíbrio da atenção pudessem ser criados. Tudo produzido, em grande medida, pelo posicionamento baixo da câmera: perto do chão, nada de alturas. Agora observe essa outra cena:

A câmera, do tatami, observa o casal em Começo de Primavera (1956). Eles conversam, faz calor. O efeito, ao mesmo tempo que produz uma sensação de trivialidade, conduz a um tipo particular de intimidade: nos sentimos próximos e possíveis personagens do quadro. Mais uma: essa de Era uma vez em Tóquio (1953):

Um balcão de bar, dois homens bebem, uma mulher os atende. Conversa ligeira, apropriada para essa situação. O tempo passa, a câmera continua, quase imóvel, na outra extremidade do bar, exibindo num ponto de fuga um pouco oblíquo os personagens. Mais uma cena, portanto, muito trivial, muito ordinária: mais uma cena, mais uma vez, capturada a partir de uma perspectiva extraordinária, pouco habitual apenas porque muito próxima de coisas pequenas, do que é tido habitualmente como descartável, atenta para o quase nada e buscando uma intimidade com um sustentáculo elementar e, por isso mesmo, trivializado, desprezado como lugar de observação para os afazeres humanos, para a experiência - principalmente no cinema.
O poder alegórico dessas imagens e desse conjunto de escolhas para a produção de imagens me impressiona. Ou seja: produz uma marca em mim, ou produziu, em um dado momento, e partir daí minha experiência negocia com essa marca, que me identifica também. Agora - e eis aqui o FAQ, a resposta, ou minha tentativa de dizer qual seria o definidor da estrutura disso aqui -, pense: Como seria escrever com uma perspectiva ao mesmo tempo fixa (porque o modo de olhar é sempre o mesmo, está fixado) e fluida (porque o outro que se observa sempre se distingue, sempre nos convoca a olhar algo mais, olhar em outra direção, olhar como o outro olha). É isso.
Escusado dizer que vou falhar, estou falhando em meu intento. Mas isso também é bom.