ozu


Tendo
Outubro 26, 2007, 12:24 am
Arquivado em: FAQ

passado uns oito meses sem escrever aqui, me custa um pouco retomar: estou enferrujado, e as circunstâncias mudaram muito. Mas o desejo de escrever continua e, antes que se cumpram nove meses de silêncio, volto a escrever. Estou planejando uma reformulação geral do blog, com a ajuda de uma amiga - mas isso virá depois. Por enquanto, o que quero é acoplar meu desejo de escrever aqui a novas circunstâncias. Se conseguir isso, e se isso resultar em voltar a escrever com uma certa regularidade, já vai estar de bom tamanho.

Falei em silêncio mas isso é, claro, modo de dizer: se alguém está lendo, não se trata exatamente de silêncio, há uma conversa em curso. Foi ao longo desse período de “silêncio” que aconteceu o recorde de visitas ao blog - motivadas, imagino, pelo link gerado na página da Copa de Literatura Brasileira. Agradeço às pessoas que escreveram para mim a respeito do blog, e também aos que comentaram algo aqui mesmo. Aprecio em particular os eventuais comentários dadaístas que aparecem: é bom saber que minha vanguarda artística favorita continua viva.

Escolher hoje para retomar é também uma maneira de presentear um amigo querido - incentivador freqüente, crítico fiel, leitor assíduo, e sempre queixoso com o silêncio do blog.

Rúpia



Três Meses
Novembro 20, 2006, 9:07 pm
Arquivado em: FAQ

Depois de uns três meses de escrita aqui (comecei 13 de Agosto):

Esse blog é feito de exercícios narrativos. Já disse que escrevo aqui sobre literatura e memória, e isso define bem, acho, o espaço de manobra (cabendo talvez perguntar o que ficaria de fora desses dois temas, assunto certo para algum post futuro). Mas é tudo ficção, invenção. Eventualmente, é claro, há alguma conexão com eventos e fatos que podem levar - principalmente se associados ao caráter autobiográfico tão comum no formato blog de escrita - a uma leitura dos relatos como envolvendo a mim, à “pessoa física” Antonio Marcos Pereira. E, claro, eles me envolvem, na medida em que as coisas que estão aqui emergem de minha memória, leituras, hábitos, etc. Mas é só isso. Os momentos em que estou na primeira pessoa aqui são apenas esses, do FAQ. O “Antoine” que às vezes é mencionado não sou eu, mas um personagem. Digo isso após ter recebido mensagens de amigos me perguntando, a partir de um dado post, se estou bem. Ou “corrigindo” um ou outro fato, ou me perguntando detalhes de um evento relatado. É ficção, pessoal. E, se algo há de se esclarecer, o fará ao longo da leitura, por força do que vai sendo adicionado aqui post a post, associado a seu interesse de leitor em encontrar respostas pra suas próprias perguntas.

Eu desejava escrever e publicar; tinha feito outras tentativas de blog ao longo dos anos e nenhuma se firmou nem me agradou, abortei todas. No caso do Ozu, creio que por ter decidido de antemão que a função do negócio para mim seria semelhante à de participar em uma oficina de criação literária, e que o espaço seria uma espécie de foro para meus cadernos e anotações, a coisa funcionou, avançou, me habituei. É uma oficina anômala, claro: os professores aqui são só os autores que costumo ler e as pessoas que costumam vir aqui ler o que escrevo. Com uns, negocio minhas questões de influência; com outros, aprendo algo sobre a recepção, sobre o que é ser lido. Para mim, está de bom tamanho: tenho aprendido, dos dois lados.

À medida que o hábito foi se estabelecendo, foi também gradualmente se fixando um procedimento, alguns procedimentos. Isso pode ser visto nos posts: no início, são mais titubeantes, casuais e breves; depois, ficam mais assertivos, alusivos e extensos. O que tentei explicitar em outro FAQ - a respeito de criar uma estratégia narrativa que fosse estruturalmente próxima do Efeito Ozu - foi, também, mudando aos poucos (embora, em um certo sentido, continue valendo: o título do blog não é à toa, é um balizador da leitura).

Recebo com alegria todos os comentários. Não os respondo aqui, mas tento responder alguns em meus contatos com as pessoas que os escrevem; há outros que, percebo, não pedem resposta alguma: assim seja.  Aos que comentam, digo que leio a todos, que presto atenção no que leio, e que espero que ao saber disso fiquem satisfeitos. Mais importante que escrever é ler, e fico feliz por saber que tenho sido lido aqui.



Atendendo a Pedidos
Novembro 20, 2006, 4:56 am
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Yo creo:

leer



Atendendo a pedidos
Outubro 3, 2006, 4:08 am
Arquivado em: FAQ

eis aqui a frase de Berditchevsky (que aprendi com Amós):

O Homem é a soma total de todo pecado e fogo enfiado nos seus ossos.
Está aqui, e foi forjada em um hebraico literário, europeu, ou em ídishe. Foi dita por Amós em uma conferência, em hebraico de Israel, com certeza. A conferência virou um ensaio em inglês, que li pela primeira vez há uns quatro anos. E há alguns minutos cometi essa tradução para o português, quem sabe a primeira.

Essa frase nunca me abandonou. É tudo, ou quase tudo, que sei de Berditchevsky. Mas é suficiente pra muita coisa. Lembro que pensei Esse Berditchevsky gostava da vida. Devia gostar de beber, de alguém, de alguns alguéns. Errou, se perdeu, nunca foi muito bom na linha reta. Sim. Há um derrame nessa frase. Um excesso. Há uma compressão da potência trágica, uma expressão muito concisa da bomba-relógio de sonho e desejo e acidente e abundância (a soma total de todo), forjada com alguma violência e uma boa probabilidade de erro e desequilíbrio (o acerto desse verbo, enfiar). Já está tudo caído nessa frase. Mas. E.

Há um conto de Kis, aquele sobre a gênese dos Protocolos, cujo ambiente sempre me evoca essa frase. Lembrei dela também no monólogo final de Kedma. Lembrei um dia viajando pro trabalho, numa dessas tantas viagens pro trabalho durante as quais eu penso tanto. Lembro que quando a conheci morava naquele apartamento no São Pedro; gostava tanto daquela sala grande e vazia. No dia em que a conheci, na hora em que a conheci, estava tomando um chá, usando uma camisa xadrez, tinha tomado um banho frio. Memória é isso - também. Afinal, me casei com essa frase naquele dia. E um casamento bom não se esquece fácil. Um casamento ruim não se esquece fácil, que dirá um bom.



Ele me sugeriu
Setembro 17, 2006, 4:26 pm
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que fizesse um FAQ para o blog. Tá difícil de entender aquele negócio, rapaz. Tá muito cifrado, eu não entendi muito não, acho que você devia fazer um FAQ. Era meio de brincadeira (um dos méritos dele, aliás, é uma habilidade perene em retorcer as situações e injetar alguma graça nelas, apesar da eventual potência trágica de certos momentos: ele parece às vezes se mover pensando na vida como um esquema onde tudo que começa em tragédia termina em tragicomédia). Mas fiquei pensando no assunto. E pensei o seguinte: observe a foto:

ozulow

Aqui, vemos Ozu posicionando a câmera para uma tomada. A posição é baixa: quase que ao rés do chão. É difícil enquadrar assim, exige uma atenção para detalhes particulares que escapolem do nosso regime de hábitos de observar. A perspectiva produzida por esse posicionamento é, assim, extraordinária. Uma predileção por essa posição de câmera é um dos elementos definidores da produção de Ozu. A partir dessa perspectiva Ozu enquadrou seus personagens, seus cenários e contou suas histórias. Veja alguns resultados: esse, por exemplo, é muito famoso, sempre aparece em discussões das particularidades formais do trabalho de Ozu:

floatingweeds

Essa tomada, de Ervas Flutuantes (1959), é sempre citada como exemplar de uma certa estratégia de composição de Ozu: a garrafa e o farol são dispostos em um mesmo plano de consistência: como se não houvesse discrepância entre os artefatos: como se uma mesma atenção coubesse à garrafa, ao farol, e à circunstãncia. Como se todas as proporções que costumamos dar às coisas devessem ser redistribuídas, e novos regimes de equilíbrio da atenção pudessem ser criados. Tudo produzido, em grande medida, pelo posicionamento baixo da câmera: perto do chão, nada de alturas. Agora observe essa outra cena:

early spring

A câmera, do tatami, observa o casal em Começo de Primavera (1956). Eles conversam, faz calor. O efeito, ao mesmo tempo que produz uma sensação de trivialidade, conduz a um tipo particular de intimidade: nos sentimos próximos e possíveis personagens do quadro. Mais uma: essa de Era uma vez em Tóquio (1953):

tm

Um balcão de bar, dois homens bebem, uma mulher os atende. Conversa ligeira, apropriada para essa situação. O tempo passa, a câmera continua, quase imóvel, na outra extremidade do bar, exibindo num ponto de fuga um pouco oblíquo os personagens. Mais uma cena, portanto, muito trivial, muito ordinária: mais uma cena, mais uma vez, capturada a partir de uma perspectiva extraordinária, pouco habitual apenas porque muito próxima de coisas pequenas, do que é tido habitualmente como descartável, atenta para o quase nada e buscando uma intimidade com um sustentáculo elementar e, por isso mesmo, trivializado, desprezado como lugar de observação para os afazeres humanos, para a experiência - principalmente no cinema.

O poder alegórico dessas imagens e desse conjunto de escolhas para a produção de imagens me impressiona. Ou seja: produz uma marca em mim, ou produziu, em um dado momento, e partir daí minha experiência negocia com essa marca, que me identifica também. Agora - e eis aqui o FAQ, a resposta, ou minha tentativa de dizer qual seria o definidor da estrutura disso aqui -, pense: Como seria escrever com uma perspectiva ao mesmo tempo fixa (porque o modo de olhar é sempre o mesmo, está fixado) e fluida (porque o outro que se observa sempre se distingue, sempre nos convoca a olhar algo mais, olhar em outra direção, olhar como o outro olha). É isso.

Escusado dizer que vou falhar, estou falhando em meu intento. Mas isso também é bom.