ozu


Ode à derrota
Outubro 2, 2006, 4:53 am
Arquivado em: Inventários

1. Estava com ele em uma daquelas feiras de livros. Livros a quilo, livros a metro, livros a rodo. É um hábito, é irresistível: há tédio, há muita repetição, às vezes tristeza, muita perda, muito desperdício, um mundo abarrotado. Mas há esperança também, eu sei. De uma daquelas pilhas, anos atrás, tirei um Danilo Kis. Já de saída vejo a lombada, no meio de coisas assustadoras: eu nem sabia que havia uma tradução: disse Compre, é um patrimônio.

lowry cover french

2. Foi há uns sete, oito anos.

3. Benefício da meia-idade: ler, ter lido pela segunda, terceira, quarta vez. O desejo de ler de novo. Estar ok com o afeto mais velho, com o afeto envelhecido. O desejo de voltar à companhia de Saleem Sinai e Padma, dos picles, de perder um pouquinho da pele no final, de se sentir sem saber, incerto, infantil e um pouco triste. De testemunhar de novo, emudecido de novo, a falha trágica de David, e ouvi-lo se perguntar, de novo, pelo destino de suas fitas de Janacek roubadas. O desejo de tomar mescal, de conversar com ela sobre bossa nova e caipirinha, e voltar à companhia de Firmin pela segunda, terceira, quarta vez. Beber, pensei, é necessário pra esse livro. E tomei mais uma. Fazia frio, dinheiro não havia (mas dívidas tampouco). E eu tinha, obviamente, outras coisas para fazer que não ler. Mas era assim que eu me sentia.

lowry lounging

4. Ela se aproximou de mim, já entre o meio e o fim da festa, aquela voz líquida demais, e me disse, como quem pede desculpas Sabe, eu faço essas coisas assim, eu sei, mas eu sei porque eu sou alcoolatra. Meu pai é alcoolatra, meu avô era alcoolatra, é genético, é porisso, viu? Pensei que talvez meu caso fosse o mesmo, mas com o sinal trocado. E, claro, lembrei dele. Na época eu nem tequila bebia, que dirá mescal. Cinco, seis anos depois ia me acabar de mescal em Oaxaca e lembrar da história toda com ela. Dormente, completamente dormente, aquele disco de bolero tocando, ouvindo só isso e a memória junto, e o livro aparecendo aí também, que situação.

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5. Claro, durante muito tempo eu nutri esse tipo de desejo, alimentei isso. Era isso mesmo. Não era só escrever o negócio, tinha que ter um esquema tipo eremitério, de ficar isolado e sair depois com a coisa debaixo do braço, tudo prontinho, acabado. Então quando eu aluguei a casinha lá em Puerto Angel a idéia era essa. E também lá se vivia barato, era tudo barato. Eu comia todo dia num restaurantinho que era a casa de uma velha, ela abria uma portinha e vendia comida pra mim e pra uns caras que tavam trabalhando numa empreitada lá. Eu ficava fumando e prestando atenção na conversa, às vezes me metia, mas pouco. Uma cachaça, rapaz, a distração do povo era tomar cachaça. Então não tive jeito não, foi isso. Uns disco velho que tinha lá na casa da velhinha, do tempo dela ainda. Isso era bom. Mas livro, óculos, máquina de escrever, essas coisas chamavam muito a atenção. Agora isso eu não pensava não, naquela época não. Porque é foda, ter tempo demais na mão é foda, você viu bem no que deu, apareceu aquele esquema, o dinheiro foi acabando, foi foda, viu?

6. Sempre imagino que ele está me oferecendo uma dose de Bols, que ri de algo que ela disse, que o verão chegou generoso esse ano e nenhum de nós está longe desse momento aqui. Ninguém que está aqui quer estar longe daqui. Eu acendo um cigarro, coço a perna um pouquinho, vamos ficar aqui, debaixo da árvore, o sol tão agradável, vamos ficar aqui lendo e conversando. Lendo e conversando e bebendo um pouquinho.

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7. Lembro dele assim, esperando, sorridente, bebendo um pouquinho, sempre. Também quero morrer assim, pensei. No cartão ele escreveu Dear Antonio, In the picture, we are happy. She says Hello, she says We miss you; I say A toast! Yours, M. Três, quatro anos depois pensei Como é que Ginsberg esqueceu dele em Ode to Failure? Estão mesmo felizes na foto.

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Há muito tempo
Setembro 19, 2006, 4:27 am
Arquivado em: Inventários

não nos vemos. Da última vez liguei pra ele da rodoviária, de surpresa: Estou aqui, vim pra isso e aquilo, de repente, nem eu sabia direito. Peguei o metrô cansado e feliz (gosto dessa combinação, e ambiciono morrer assim: observem que não usei a conjunção adversativa). E nos encontramos, e tomamos café, e me acomodei no carinho cálido da casa dele, e dormi.

Uma vez ele foi em meu apartamento, lembro que não tinha onde sentar, o que é uma maneira de dizer que sentaríamos, como sentamos, no chão. Tomamos chá, dessa vez e em muitas outras (aprendi a gostar de chá com ele).

Nos falamos pouco hoje em dia. É esporádico, e as razões são tênues: o novo disco do Dylan, piadas sobre as eleições, a saúde de uma pessoa querida, os discos dele, meus planos sempre meio esgarçados de futuros e sonhos loucos de um novo começo (ele não faz mais planos, acho: já tem quase sessenta, parece estar além, ou aquém, disso - e parece estar assim há muito tempo). Nos falamos pouco, como se fôssemos velhos amantes, e a fala fosse passear em outro lugar de vez em quando, aparecendo quando quer, e tão-somente, cheia de caprichos. Não é exatamente um caso de pouco importa: é mais pra um caso de velhos amigos - o que, efetivamente, é nosso caso.

Hoje ele me enviou um email. Dizem que há em cada geração trinta e seis homens justos - e, imagino: também leves, sorridentes, com um bom equilíbrio de gravidade e graça, uma compreensão igualmente fértil dos méritos respectivos de tragédia e comédia, eventualmente mal-vestidos mas em geral inequivocamente bons - dizem que há trinta e seis homens justos que sustentam a Terra, e que justificam a todos nós, os demais, os demasiados. Acho que alguns deles são mulheres, e acho que um deles é ele. Uma vez - há muitos anos mesmo, uns vinte, até mais - fomos ao cinema. Foi meu primeiro Kurosawa. Ele está aqui.

dersu