ozu


Eu queria
Fevereiro 27, 2008, 1:37 am
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ser um Sebald. Bigodinho simpático e olhar um pouco triste, mas bom. A roupa meio amarfanhada, mas sempre ok. Mas queria ser um Sebald com algum apelo pop, né? Que tivesse uns personagens assim mais contemporâneos, mais maluquete, que curtissem Morton Feldman e tomassem um chope de vez em quando, ficavam ouvindo Cage e curtindo, falando de Matthew Barney, Björk, o bicho. Ia ter um cara ouvindo Smiths, um cara se apaixonando por uma menina num show punk lá no cine Roma e depois pegando uma carona num caminhão e sentindo o vento e ficando feliz. Um cara que ia pro cinema com a irmã pequena e comprava pipoca. Uns coroas jogando dominó. E meu avô jogando Go. Tipo assim.

 

 

sebald
(Uma origem aqui)


A anotação
Fevereiro 13, 2007, 11:52 pm
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é muito simples: enquanto glosa é pífia. No penúltimo parágrafo do livro, lemos:

Sentia apenas um júbilo louco e uma clareza cristalina, e essa conjunção parecia mais que tudo que já disse, tudo que já fez. Sentia que tinha acabado de receber boas notícias impossíveis: chegaram, e fizeram de tudo o mais trivial, lindo e trivial.

E ao lado, na margem, a lápis:

Que título!

O problema é, precisamente, esse: que título?

gk

(Uma origem aqui)



Cinqüenta anos
Dezembro 8, 2006, 4:08 am
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e continua lúcido, surpreendendo a quem o conhece, deixando como resumo do contato um certo atordoamento simultâneo a conhecimento de si e perplexidade, todos fios de uma trança fina e rija que, em prolongamento variável, valha certa celeridade, envolveu e coibiu, constrangeu e limitou mas que agora, findo o aperto do laço, recupera um movimento que não é o mesmo de antes do constrangimento, e mescla a uma leveza demasiada um certo quociente de erro, engendrando mesmo um ressentimento da carne que é saudoso das cordas que, ao cingir o peito, conferiram-lhe um abrigo, embora vão e ventoso, dos vagares de seu próprio desejo. E como é próprio da grandeza, é certo que irá morrer carregando-o, pois é assim com tudo que nos dá um leve vislumbre daquilo que ou abdicamos ou nos cansamos ou nos vimos sem força e demasiado andrajosos e desejosos de outras coisas ou mesmo das mesmas coisas, entediados e obtusos, nos debatendo diante das mariposas que cumprem a si mesmas indubitáveis e insólitas em sua conduta atabalhoada e alegórica. Tendo habitado esse lugar, a região obscura e vaporosa por ele designada perdura, e prossegue, lacunar e fosca e indeterminável, e a conquista da clareza está em exibir a todos a farta escuridão do assunto.

zama



O fator Bolaño
Novembro 4, 2006, 5:12 am
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(Dois trechos da entrevista)

É, a metáfora da colonização é boa, porque o efeito da leitura é muito parecido. Ou pelo menos foi assim em meu caso. Aliás, é de praxe se falar de polifonia com relação a Dostoievski, por causa do ensaio de Bhakhtin. Isso deve estar correto. Eu não sei, não li Dostoievski direito, e Bhakhtin era uma espécie de signo de poder na época em que eu estava na Faculdade de Letras, por volta de 88, 89. Abdiquei. Mas, independentemente do suporte teórico, acredito que Bolaño produz um outra volta nesse parafuso aí. Remexe com a própria idéia do romance como um turbilhão de vozes, e legitima o romance pandemônio. É disso que se trata. Para citar um caso semelhante, Pynchon, por exemplo, já havia operado com recursos algo semelhantes, mas em nenhum lugar, creio, podemos encontrar uma operação que valorize a oralidade daquela maneira. Tampouco o registro da subjetividade a partir - sempre - e esse talvez seja o ponto nodal da narrativa, em um certo sentido - sempre de um ponto de vista que é alheio. Então, quando publiquei O Fator Bolaño, o que buscava era valorizar isso, e ao mesmo tempo sugerir uma leitura de seu trabalho que o alojasse, hierarquicamente, em um posicionamento próximo ao de Borges. Seguindo a famosa boutade de Piglia, creio que aquilo que Bolaño faz é produzir um espaço, ou condições de possibilidade, para a ficção do século vinte e um. Ao contrário de Borges, que seria, segundo Piglia, o último narrador do século dezenove, Bolaño é o primeiro do século vinte e um. É a forma das coisas que viriam, e de fato vieram, e essa forma é alcançada através de uma relação muito particular com o passado individual e com a história da literatura, particularmente da literatura latino-americana. Esse é o argumento central.

(…)

Aí já entramos em aspectos mais ligados á biografia da leitura, tópico lamentavelmente desvalorizado no regime crítico atual. Parte das sabotagens efetuadas pelo tal “exército das toupeiras” ao qual se refere Vila-Matas. O fato é que quando li Os Detetives fiquei por um tempo bem mais jovem. Recuperei uma sede infantil pela leitura. Uma voragem da qual já havia me esquecido, ou da qual lembrava pouco. E era muito parecida mesmo com o desejo ávido de ler que sentia quando era menino, logo quando aprendi a ler e o mundo inteiro me parecia estar aí pra ser lido. Essa sensação foi muito poderosa, lembro bem dos dias da leitura, a imagem é muito clara. E, claro, logo em seguida veio um desejo, igualmente poderoso, de escrever muito, de escrever como ele, de ser o Pierre Menard de Roberto Bolaño. Sentia uma inveja sólida daquela maravilha, do fato de Bolaño, e não eu, ter sido o portador daquela maravilha. Minha condição existencial estava longe de ser boa, mas isso tornou-se efetivamente secundário. O livro é, todo ele, uma epifania, mas também aí há uma torção particular, uma vez que o que se constitui como epifania não é exatamente um clímax mas sim uma operação reversa, a posteriori, que só se pode articular ao final da leitura quando então se descobre que é o processo o maior produto e legado do trabalho. Ainda, no que diz respeito às disposições morais solicitadas pelo trabalho, o que ocorre é que, tendo lido, deseja-se viver, mais e melhor. Deseja-se ler mais e melhor. E, também, em meu caso, desejei escrever. Essa abertura é, imagino, uma das direções para as quais se pode levar a bendita janela final. Sua fragilidade é absoluta. Não consigo deixar de lê-la como uma alegoria.

 

ventana

 

(Uma origem aqui)



Saer também
Novembro 2, 2006, 5:27 am
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foi jovem, rapaz, na verdade ele nem morreu tão velho assim, tinha o quê, sessenta e tantos, nem setenta ele tinha. Tá, aí já é velho, ok, certo. Mas voltando, e de onde você acha que ele tirou aquele câncer? Muita noite perdida, baralho, já li que ele adorava um baralho, cigarro, lembre do Sergio, aquilo é conhecimento de causa, aqueles muquifos de carteado de Santa Fe fim de noite total. Agora, verdade seja dita, não pode ter sido uma vida ruim não. Porque mesmo quando o pau tá quebrando a gente sabe que ele tava prestando atenção nas coisas, prestando atenção em tudo, poroso pro mundo, uma coisa como Glosa, por exemplo, aquilo é muito prestar atenção nas coisas, não é pouca coisa não, tem afinco no negócio, atenção focalizada, olho aberto, paciência, empenho, e tal. Agora tem também mil luxos na coisa, amizade, cervejadas, cerveja gelada, sinuca, redação de jornal, tem alegria na coisa, amigos conversando sobre o que vier, alegria de ser amigo, alegria de ter amigo, de saber do amigo. Tem sexo, o povo trepa, veja a Elisa e o Gato, ali é só um caso, mas então tem isso também, tem desejo nas coisas, tem um halo de desejo passeando e às vezes ele captura isso como ninguém, o caso do Sergio e da empregada então é um caso, isso. Então isso, esse tipo de foco, de objeto, acho, fala de uma apreciação da vida sim, niilismo nenhum, tem uma entrega aí, uma porosidade, é foda isso, impressionante.  Uma vida farta, atenta, mas sem insulamento, vivida, gasta, gastou, bem usada, isso. Agora, tem a inteligência, né, e isso há de ser um problema, sempre, claro, a porra do mundo cheio de filisteu e o cara  querendo fazer literatura? Pois é. É, ninguém leva porrada, só príncipes e filhosdaputa, todos os filhosdaputa são príncipes. E olham prum negócio desse, aliás que olham o quê? Olham porra nenhuma, não olham pra nada, é exatamente o oposto, esse que é o problema na verdade, a atenção, a bendita da atenção desses fidaputa tá toda no umbigo. É foda. Ninguém leva porrada, ninguém faz papel de besta, tudo investimento certo, líquido e certo. E o negócio é justamente o contrário disso, porque o que há é perda. Agora leia o final de O Enteado, um filhodaputa, um cara escroto, não tem condição de escrever aquilo não rapaz. Não, não é congruência de vida e obra não. É outra coisa. Mas é foda. Como diz o Bolaño, a literatura é uma desgraça. Não, não é só isso, claro, mas a porra é uma chaga também, uma coceira que nunca para de coçar, é foda. Não tem aquele lance do Lobo Antunes que ele fala que o cara que curte literatura é que nem o heroinômano? Sim, tem hipérbole aí sim, mas tem verdade também. Porque dá trabalho, e tal. Claro. Mas ele foi jovem sim, claro, porra, que raio de pergunta é essa? Tá tudo lá, agora você tem que prestar atenção também, né, tem que pagar seu quinhãozinho. Ah, é, bom que você lembrou disso, é, são os dois soldados, o Soldado Velho e o Soldado Jovem que tem razão. Literatura é também esse lugar, os dois podem ter razão e ninguém tem necessariamente que se fuder por isso. É lindo.

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opera lacrimosa - 1
Outubro 24, 2006, 6:11 pm
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Vinte e seis, estudante de filosofia, faz uma pesquisa sobre as implicações epistemológicas da geometria não-euclidiana. Recém-saído de um casamento precoce e feliz e infeliz. O trabalho é tedioso, moroso, hostil; repudiou o que realmente desejava estudar por não acreditar no que realmente desejava estudar e, como é de praxe nesses casos, logo estava questionando a própria realidade de seus desejos todos. Forasteiro, se sente deslocado e ignorante entre colegas sofisticados e sulistas, ou pelo menos pretensamente sofisticados (mas indubitavelmente sulistas, brancos, endinheirados). Um amigo um dia lhe empresta o livro; ele tenta ler, mas se entedia. Falta muito vocabulário, o francês é muito complexo, o livro é cheio de listas e muito grosso, enfim, a leitura é insalubre e ele quer se distrair, quer mentira, quer aventura, quer ficção, enfim. Mas também é certo que imaginou, pelo título, pela reputação do livro e do autor, que haveria algo ali. Tenta de novo, pois considera o amigo como criterioso e de bom gosto. Desiste, e vai devolver ao amigo, que insiste, Não, não, tente de novo, você vai gostar, você vai ver. Enfim, prossegue, lê, e chora no momento em que se dá conta da morte da mulher de Winckler. Chora quieto, está sozinho, soluça um pouquinho, olha pela janela, enxuga o rosto e retoma a leitura.

Anos depois uma circunstância particular faz com que ele lembre de seu amigo e, pela deriva natural da ordem da memória, recorde esse trecho do livro e recupere o que ocorreu com ele, mais de dez anos antes, e pensa Curioso, nem parece que senti a morte dela, ela eu nem conhecia, nem o nome dela me lembro. Mas a morte dela nele, a morte dele pela morte dela, ah, isso foi tão triste! Pensa nisso e remexe distraído no bolso do agasalho, Ele morre tantas vezes ao longo do livro, batalha tanto e morre, é triste. Há uma vingança, mas a vida teria sido melhor negócio, com certeza. Remexe no bolso enquanto pensa mas não procura nada, ou não sabe o mais o que procura mas continua remexendo ou procurando ou se distraindo mesmo assim.

Ainda se sente movido pela lembrança dessa e de outras tantas situações de perda e dissolução no livro, e é delas que se lembra melhor, e com mais freqüência, as histórias de sucesso se perdendo na memória, desnecessárias em meio a tantas epopéias de príncipes oferecidas ininterruptamente a seu ouvido, todos sempre heróicos protagonistas, todos incapazes da alegria de serem coadjuvantes, todos filhosdaputa arrogantes pra caralho, sacanas impermeáveis que nunca levaram porrada e com os quais tem de se haver todos os dias.

vie