foi jovem, rapaz, na verdade ele nem morreu tão velho assim, tinha o quê, sessenta e tantos, nem setenta ele tinha. Tá, aí já é velho, ok, certo. Mas voltando, e de onde você acha que ele tirou aquele câncer? Muita noite perdida, baralho, já li que ele adorava um baralho, cigarro, lembre do Sergio, aquilo é conhecimento de causa, aqueles muquifos de carteado de Santa Fe fim de noite total. Agora, verdade seja dita, não pode ter sido uma vida ruim não. Porque mesmo quando o pau tá quebrando a gente sabe que ele tava prestando atenção nas coisas, prestando atenção em tudo, poroso pro mundo, uma coisa como Glosa, por exemplo, aquilo é muito prestar atenção nas coisas, não é pouca coisa não, tem afinco no negócio, atenção focalizada, olho aberto, paciência, empenho, e tal. Agora tem também mil luxos na coisa, amizade, cervejadas, cerveja gelada, sinuca, redação de jornal, tem alegria na coisa, amigos conversando sobre o que vier, alegria de ser amigo, alegria de ter amigo, de saber do amigo. Tem sexo, o povo trepa, veja a Elisa e o Gato, ali é só um caso, mas então tem isso também, tem desejo nas coisas, tem um halo de desejo passeando e às vezes ele captura isso como ninguém, o caso do Sergio e da empregada então é um caso, isso. Então isso, esse tipo de foco, de objeto, acho, fala de uma apreciação da vida sim, niilismo nenhum, tem uma entrega aí, uma porosidade, é foda isso, impressionante. Uma vida farta, atenta, mas sem insulamento, vivida, gasta, gastou, bem usada, isso. Agora, tem a inteligência, né, e isso há de ser um problema, sempre, claro, a porra do mundo cheio de filisteu e o cara querendo fazer literatura? Pois é. É, ninguém leva porrada, só príncipes e filhosdaputa, todos os filhosdaputa são príncipes. E olham prum negócio desse, aliás que olham o quê? Olham porra nenhuma, não olham pra nada, é exatamente o oposto, esse que é o problema na verdade, a atenção, a bendita da atenção desses fidaputa tá toda no umbigo. É foda. Ninguém leva porrada, ninguém faz papel de besta, tudo investimento certo, líquido e certo. E o negócio é justamente o contrário disso, porque o que há é perda. Agora leia o final de O Enteado, um filhodaputa, um cara escroto, não tem condição de escrever aquilo não rapaz. Não, não é congruência de vida e obra não. É outra coisa. Mas é foda. Como diz o Bolaño, a literatura é uma desgraça. Não, não é só isso, claro, mas a porra é uma chaga também, uma coceira que nunca para de coçar, é foda. Não tem aquele lance do Lobo Antunes que ele fala que o cara que curte literatura é que nem o heroinômano? Sim, tem hipérbole aí sim, mas tem verdade também. Porque dá trabalho, e tal. Claro. Mas ele foi jovem sim, claro, porra, que raio de pergunta é essa? Tá tudo lá, agora você tem que prestar atenção também, né, tem que pagar seu quinhãozinho. Ah, é, bom que você lembrou disso, é, são os dois soldados, o Soldado Velho e o Soldado Jovem que tem razão. Literatura é também esse lugar, os dois podem ter razão e ninguém tem necessariamente que se fuder por isso. É lindo.
