são duas coisas na verdade. Uma é um lance que acho que li em Borges, que é mais ou menos o seguinte: se você encontra a dicção de um personagem, de um sujeito, se você dá conta da fala do cara, tipo “Ah, Fulano fala assim, Fulano fala assado” então pronto, taí: Borges, digamos que foi Borges porque eu realmente não lembro e, na dúvida, a gente sempre pode atribuir as citações a Borges que no final dá certo, então Borges, que gosta dessa coisa que é meio brega mas, enfim, o que ele diz é que aí, nessa voz, você encontra um destino. Na fala, um destino. Isso, bom, nem precisa acreditar em destino pra dar valor a isso.
Então isso é uma coisa. A outra coisa é a história do cara que tem um livro que ele tá o tempo todo escrevendo e que Mitchell até persegue um tempo, porque ele acredita que tem mesmo um livro, um projeto de livro, inclusive porque o cara sempre andava com uma pastinha meio suja, com uns manuscritos, uns papéis. E Mitchell também era crédulo, era bondoso, parte do negócio dele era mesmo acreditar. Bom, esse livro aí, que no final a gente descobre que não tinha livro nenhum, nunca houve livro nenhum, assim, do ponto de vista material, nada, era um livro só de desejo, o título desse livro era um negócio tipo “Uma História Oral do Universo”, ou “Uma História Oral da Cidade de Nova York”, uma coisa assim, imagine. Esse caso é um problema interessante de história literária porque Mitchell [...]. Então tem aquele momento lindo em que ele diz “Mas nunca foi uma questão de preguiça”.

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É um prédio hoje em ruínas, e já era um pardieiro na época de sua residência lá, o que inclusive explica a permanência tão prolongada no local - cerca de oito meses, período em que, como sabemos, foi acossado por uma falta crônica de dinheiro. São proverbiais sua amabilidade e gentileza inesgotáveis, mesmo na adversidade. A conhecida sociabilidade local, aliada a certos laços solidários que conseguiu estabelecer com os vizinhos explicam sua sobrevivência em um regime de grande privação, mas nunca de miséria, estritamente falando. Registros do período não há, salvo os parcos remanescentes de sua produção: as traduções realizadas por ele foram, sem exceção, de material técnico, e mesmo o único texto que publicou no período - uma resenha crítica dos métodos em vários trabalhos que visavam analisar os erros de escrita de alunos das escolas rurais - é resultado da produção de um período anterior, por volta de 75 ou 76, sendo datado de 1978 apenas por causa da demora habitual em publicações acadêmicas na época.
Há, entretanto, uma foto - o que pode representar muito, se acolhermos a sugestão de Barthes de que a fotografia está para a história assim como o biografema para a Biografia. O registro é eloqüente, e nada trivial no contexto de uma abordagem da obra: é a conhecida foto que temos dele em sua mesa de trabalho, camisa xadrez, óculos na mão, olhando para a câmera. Ali, como numa espécie de índice de conteúdos, estão arrolados todos os elementos que caracterizam o trabalho que ele estava realizando então. Há um copo com um líquido escuro, provavelmente café ou conhaque, ao lado de um caderno pequeno que, por sua vez, está sobre um caderno maior, ambos abertos. Pela lombada dos livros dispostos na mesa em uma pequena pilha podemos ver o que ele lia ou consultava: lá estão Learning to Labour, a etnografia de Paul Willis sobre os processos de socialização de jovens proletários na Grã-Bretanha; as Selected Satires of Lucian, na tradução de Casson; o Hans Staden; uma biografia de Burton; uma edição de bolso, em dois volumes de Miguel Strogoff; uma coletânea de textos de Benjamin; a Gaia Ciência e a Genealogia da Moral; Vies Imaginaires, de Schwob; Les Choses, de Perec e, ao lado da pilha, aberto, com um lápis repousando no veio central do livro, o que deve ser uma edição das Viajes, de Sarmiento. Esse aglomerado de literatura - tão diversificado e indisciplinado que se assemelha à taxonomia chinesa de Borges que foi celebrizada por Foucault - foi, todavia, o material fonte, a pedra bruta na qual ele lavrou, à custa de um empenho de uma argúcia que parecem ter sido impulsionados pela ausência total de interlocutores, o pungente e anômalo Anatomia da Resistência.
O livro perdura até hoje como o único trabalho a tratar conjuntamente dos projetos e processos da Esquerda em um recorte histórico e geográfico que abarca a França na Segunda Guerra, a Itália pós-fascismo e as tribulações tendo lugar então no Chile, na Argentina e, evidentemente, no Brasil. Obra única em seu misto de ficção, biografia e reflexão política e social, foi recebida com mudez absoluta ao ser finalmente publicada em 1982, pela Gallimard. Para a Esquerda, no Brasil já relativamente festiva com o prenúncio da abertura política, o livro acolhia com excessivo langor uma retórica burguesa, e dava as costas com muita tranqüilidade (até mesmo um certo orgulho) a qualquer diretriz que pudesse, salvo em um nível estritamente conceitual, ser conectada à pauta do Partido. Sua publicação inicial na França, devida principalmente a uma operação de bastidores de Sollers, trabalhou surpreendentemente contra sua recepção na América Latina.
Teve três casamentos, nenhum filho e está enterrado no Cemitério Israelita da Bahia, em Salvador.

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os papéis que vasculha, procurando um que já nem sabe mais qual é e, por isso, volta e meia tem que parar para se esforçar para relembrar, e assim prossegue encontrando muitos que lhe despertam isso e aquilo, todos obviamente produzem memória mas há mais também. Tome por exemplo esse papel verde claro, dentro de um envelope com seu nome escrito, e a caligrafia já torna dispensável a confirmação pela assinatura de quem escreveu, que escreveu
O mar, em sua imensidão, é para uns pavor e opressão. Para outros é já um braço largo, a infinitude que aconchega e faz a criação cruzar o horizonte. Em sendo sempre o mesmo, retorna parecendo outro.
E há a data e os cumprimentos de praxe mas, também, uma rasura: a palavra mar, na primeira linha, foi riscada e, com uma caneta diferente, está escrito acima amor.
Esse papel encontrado produz uma curva em sua busca, um retorno desse momento para outro, e para ali onde aquela carta foi enviada, para a forma como foi recebida e, assim, a compressão dos cinco anos que lhes separam é, nesse momento da descoberta e da leitura, um hiato ínfimo, e tudo parece um aceno, parece seu nome dito na noite, quando menos se espera uma voz familiar no meio da noite erguendo sem hesitar seu nome, e é fato que todos os envolvidos naquele círculo de segredos e coisas mal feitas e bem ditas estão hoje entre removidos e distantes, semi-esquecidos e ausentes, mas todos um pouco mais mortos e feridos apesar de, como você, continuarem, cada um à sua maneira, também.
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sendo, portanto, a de se deparar com o que está disponível à atenção em pleno meio-dia, no meio da rua e à toa, e justamente por isso é tão fugidio, porque parece trivial, é ordinário, enfim, nada, você nunca vai se debruçar sobre aquilo, até que quando enfim se dá conta, é isso. Esse é o problema. Mas é a graça também.

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a meus amigos dadaístas, pensou, que nem nesse pandemônio me deixam andar em linha reta ou levar a sério esse meu triste desejo de andar em linha reta. Agradeço por me ajudarem a me levar menos a sério, por me darem um salvo conduto para uma cerveja nesse calor hostil de mal dos trópicos.
Pensou, afrouxou o colarinho, avançou entre os camelôs e a ruidaria e o movimento no calor da calçada em frente ao cinema, cruzou o olhar com uma mulher de vestido que vinha em sua direção e se persignou - e sorriu, pensando também que se tudo parece dar errado quem sabe errado de fato não seja isso, essa monótona idéia de erro? Pois isso também há de mudar, pensou.

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que a gente tem o quebra-nozes, disse, enquanto gesticulava, com o objeto balançando um pouco solto em sua mão, parte portanto do vai-e-vem do gesto e do sublinhar didático da fala, lá eles usam isso pra cortar a noz de bétel, é isso. Olha que primor a coisa, tudo cheio de gravação e detalhinho, disse, e nesse momento parou um pouco o gesto e dirigiu nossa atenção para o corpo que tinha na mão, mexendo um pouco com o polegar e o indicador para movimentar a alavanca que, afinal, era a grande justificativa funcional do objeto e continuou, dizendo Agora, lá é comum isso, muita gente masca, e tem vários artifícios pra preparar a coisa, pra dar uma temperada, corta, dá uma temperadinha, às vezes pega um cigarro e aperta assim em cima pra deixar cair um pouquinho do fumo na mistura, deixa marinando enrolada numa folhinha de bétel mesmo e fica tudo amarradinho.

