É um prédio hoje em ruínas, e já era um pardieiro na época de sua residência lá, o que inclusive explica a permanência tão prolongada no local - cerca de oito meses, período em que, como sabemos, foi acossado por uma falta crônica de dinheiro. São proverbiais sua amabilidade e gentileza inesgotáveis, mesmo na adversidade. A conhecida sociabilidade local, aliada a certos laços solidários que conseguiu estabelecer com os vizinhos explicam sua sobrevivência em um regime de grande privação, mas nunca de miséria, estritamente falando. Registros do período não há, salvo os parcos remanescentes de sua produção: as traduções realizadas por ele foram, sem exceção, de material técnico, e mesmo o único texto que publicou no período - uma resenha crítica dos métodos em vários trabalhos que visavam analisar os erros de escrita de alunos das escolas rurais - é resultado da produção de um período anterior, por volta de 75 ou 76, sendo datado de 1978 apenas por causa da demora habitual em publicações acadêmicas na época.
Há, entretanto, uma foto - o que pode representar muito, se acolhermos a sugestão de Barthes de que a fotografia está para a história assim como o biografema para a Biografia. O registro é eloqüente, e nada trivial no contexto de uma abordagem da obra: é a conhecida foto que temos dele em sua mesa de trabalho, camisa xadrez, óculos na mão, olhando para a câmera. Ali, como numa espécie de índice de conteúdos, estão arrolados todos os elementos que caracterizam o trabalho que ele estava realizando então. Há um copo com um líquido escuro, provavelmente café ou conhaque, ao lado de um caderno pequeno que, por sua vez, está sobre um caderno maior, ambos abertos. Pela lombada dos livros dispostos na mesa em uma pequena pilha podemos ver o que ele lia ou consultava: lá estão Learning to Labour, a etnografia de Paul Willis sobre os processos de socialização de jovens proletários na Grã-Bretanha; as Selected Satires of Lucian, na tradução de Casson; o Hans Staden; uma biografia de Burton; uma edição de bolso, em dois volumes de Miguel Strogoff; uma coletânea de textos de Benjamin; a Gaia Ciência e a Genealogia da Moral; Vies Imaginaires, de Schwob; Les Choses, de Perec e, ao lado da pilha, aberto, com um lápis repousando no veio central do livro, o que deve ser uma edição das Viajes, de Sarmiento. Esse aglomerado de literatura - tão diversificado e indisciplinado que se assemelha à taxonomia chinesa de Borges que foi celebrizada por Foucault - foi, todavia, o material fonte, a pedra bruta na qual ele lavrou, à custa de um empenho de uma argúcia que parecem ter sido impulsionados pela ausência total de interlocutores, o pungente e anômalo Anatomia da Resistência.
O livro perdura até hoje como o único trabalho a tratar conjuntamente dos projetos e processos da Esquerda em um recorte histórico e geográfico que abarca a França na Segunda Guerra, a Itália pós-fascismo e as tribulações tendo lugar então no Chile, na Argentina e, evidentemente, no Brasil. Obra única em seu misto de ficção, biografia e reflexão política e social, foi recebida com mudez absoluta ao ser finalmente publicada em 1982, pela Gallimard. Para a Esquerda, no Brasil já relativamente festiva com o prenúncio da abertura política, o livro acolhia com excessivo langor uma retórica burguesa, e dava as costas com muita tranqüilidade (até mesmo um certo orgulho) a qualquer diretriz que pudesse, salvo em um nível estritamente conceitual, ser conectada à pauta do Partido. Sua publicação inicial na França, devida principalmente a uma operação de bastidores de Sollers, trabalhou surpreendentemente contra sua recepção na América Latina.
Teve três casamentos, nenhum filho e está enterrado no Cemitério Israelita da Bahia, em Salvador.
